Crônica

No palco da vida, o drama entre dois amores!

O destino às vezes costuma ser cruel e nos convoca a uma decisão entre a alegria e a tristeza, entre o sorrir ou chorar. Foi assim, ontem à noite (dia 16 de junho), exatamente às 21h30m, quando estávamos prontos para a festa de Giovanna e André Rosa, cheio de expectativas em viver uma noite feliz, quando meu filho Josué adentrou em nossa suíte com lágrimas nos olhos e entregou o telefone. Assustado, fui atender e do outro lado do fio, aos prantos, a querida Neiva Buaiz dava-me a triste notícia da morte do meu amigo irmão Carlos Vaccari.
Na hora, fiquei sem chão, flutuei e olhei para Eliza, assustada, louca para entender o que estava acontecendo: “Vaccari foi assassinado!” Todos os meus filhos, que o adoravam, choravam. Vaccari sempre dizia: “Meus sobrinhos queridos são os seus filhos!” Tanto que Josué desistiu da festa e do jeito que estava foi com Laila, a namorada, direto à casa dele ver o que poderia fazer. Nós tínhamos a difícil escolha por decidir. Mas, lembrei-me do próprio Vaccari e cheguei à conclusão que é em vida que nossos amigos necessitam da nossa presença, do nosso amor, do nosso carinho. E nisso, nunca o abandonei em nenhuma situação. E, inclusive, foi por ele, pela sua amizade, que optei quando um concorrente colunista, que sempre se achou o maior, o fodão, o poderoso, ligou-me exigindo que decidisse por quem aliar-se; já que este tinha brigado com Vaccari quando ele era o colunista de A Tribuna.
Ainda não sei como consegui chegar ao Le Buffet. Giovanna e André Rosa, lindos, vieram ao nosso encontro e falaram da tristeza com o fato. Disse-lhes que ele já tinha cumprido sua missão, que eles curtissem a noite maravilhosa, montada para dividirem com os amigos.
Sobre a festa, falaremos depois. Aqui, preciso deixar para a eternidade quem foi meu amigo Carlos Vaccari. E quantas vezes, em conversa, ele me pedia isso: “Quando eu morrer, você escreve bonito, como fez para Zuca e outros, tudo que eu fui aqui!” E foi muita coisa! Vaccari nasceu requintado, sofisticado, e vivendo numa cidade onde o pouco sempre foi exaltado, muitas vezes se irritava. Foi colunista social, dos mais brilhantes, com uma linguagem própria, onde elogios eram comedidos e se feitos, era a certeza de que tinha talento. Foi cerimonialista de três governos, Gerson Camata, José Moraes e José Ignácio Ferreira. E no cargo, ia além dos limites comuns. Como esquecer aquela produção deslumbrante, uma autêntica transformação, na posse de Camata, que ele assinou no look de Rita Camata. Era uma princesa! Com Maria Helena Ferreira decidia quase todo o seu guarda-roupa de festa.
No carnaval, deixou sua marca atuando como carnavalesco, mas era das poucas coisas que tinha arrependimento de ter entrado. Adorava produzir festas, sempre exaltando o glamour. Vibrava quando ia a um evento de grande produção e dizia que já não tinha mais ânimo para comparecer às “festinhas”. Tinha defeitos, como qualquer ser humano, mas as suas qualidades foram inquestionáveis.
Amigo fiel, crítico, mordaz, ferino, vangloriava-se do seu crivo cruel. Um filho apaixonado como poucos pela mãe, D. Eunice, e desde que ela se foi, costumava dizer: “Se eu soubesse que a morte me faria reencontrá-la, eu já tinha ido!” Ou então: “Trocaria até mesmo todo o luxo do mundo para ter minha mãe de volta, mesmo que fosse para morar numa favela!” Vaccari era sobretudo um grande ser humano, que não soube aproveitar sua época áurea com o poder e nem mesmo um emprego fixo, uma aposentadoria, se preocupou em garantir.
Adorava roupas, perfumes e revistas importadas que falavam do luxo. Eram os melhores presentes. Hoje, de onde estiver, há de ter realizado o seu grande desejo: reencontrar sua mãe. E assim, com certeza, estará muito mais feliz que nos últimos dias, onde só falava de angústia e tristeza, decepção com amigos, essas coisas que todos nós vivemos.
Meu amigo Carlinhos, estou ainda sobre forte emoção imaginando como e se terei coragem de despedir-me de você daqui um pouco. Tenha certeza que poucas vezes na vida uma sensação de tristeza foi tão forte como a que estou sentindo. Você sai de cena, seu amigo ainda há de continuar no palco da vida, onde as surpresas nos obrigam a representar e até a optar por decisões inimagináveis como ocorreu ontem, quando fui à festa abraçar os meus queridos amigos Giovanna e André Rosa, que você sabe muito bem o quanto eles demonstram uma atenção e amor por minha família, mas a minha alma se dividiu para iluminar a sua partida.
Foi uma decisão entre dois amores, amigos que a gente aprende a amar por tudo que representam no cotidiano. Não vou mais prolongar-me porque a emoção proíbe, mas está registrado para o mundo que você era um talento em tudo que se propunha a fazer e a cidade fica mais pobre sem a sua genialidade, talvez não reconhecida como merecia. Que Deus o conceda o melhor em outras esferas. Seu amigo irmão Jorginho Santos.

VOLTAR

Edição 255

Edição 255

Revista Class - Todos os direitos reservados